Mauro Oliveira, Professor IFCE
Fortaleza, 25 fev 2025
Dedicado a Tarcisio Pequeno, inventador mor do Cientista-Chefe, da Citinova, da IA no Ceará, da “pelada” na PI (dono da bola) … e por aí vai!
O Professor Roberto Lins de Carvalho, ou simplesmente Liiiinns como frescava o Tarcisio com o seu orientador e amigo na PUC-Rio, foi um dos caras mais geniais com quem já convivi. Espécie de oráculo nacional em lógica computacional nos anos 80, este sergipano da peste nos deu um “bombom” na BARCA (Bodega de Artes Raimundo de Chiquinha do Aracati), em seus últimos 100 dias antes de partir para o … “raio que o parta” (rsrsr).
Além de se achar o cara mais joiado & inteligente que ele já tinha conhecido, e era mesmo … segundo ele próprio (rsrs), Liiinns se orgulhava de sua árvore genealógica acadêmica onde nada menos que Bertrand Russel, o maior filósofo-matemático do século XX … segundo o Liiinns (rsrsr): Russel foi um orientado do mesmo orientador (Alfred North Whitehead) do orientador de seu orientador na Universidade de Toronto, no Canadá.
Amante “com lógica da vida sem lógica” (… ou não), Liiiinns adorava pregar aos meus alunos, caminhando com a pressa de um filósofo desempregado, que o Chico (Buarque, claro) conhecia nossas brasileirices como ninguém. Meus bolsistas o seguiam na BARCA, arrodiando-o sobre as 5 coisas fundamentais da vida: amor, artes, filosofia, lógica e o escambau (não necessariamente nessa ordem). Liiinns se virava pra eles e os hipnotizava com “questiúnculas reflexivas”. E murmurava pra mim, baixinho: “o tal do Sócrates fazia algo parecido, né não” … e ríamos juntos!.
Liiinns era um sedutor transcendental! Com ele aprendi que um “não” vc já “não” tem daquele olhar furtivo de ½ segundo da beleza ao lado, aprendi que sempre seremos jovens, aprendi a admirar Russel. Sim, aquele cara que para provar que 1 + 1 = 2 (“literalmente”), escreveu mais de uma centena de páginas (“Principia Mathematica”) com seu dileto Whitehead, em 1910.
Russell foi também um ativista pela paz nas guerras mundiais e na guerra do Vietnã. Acabou sendo preso por seu ativismo pacifista. Em 1950, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, não pelas suas matematices, mas pela elocubracices filosófico-humanista.
E onde entra o Peru do Russell neste evangelho? Calma aí …
Tudo isso é para preambular que a lógica na qual se baseia a Inteligência Artificial (IA) tem três tipos de Inferência: DEDUTIVA, INDUTIVA e ABDUTIVA.
A inferência Dedutiva é baseada em silogismos (olha aí o bloquinho de pré-carnaval na Dona Mocinha) que partem de regras gerais e fatos conhecidos (premissas) e levam a uma conclusão: “Todos os homens são mortais, Sócrates (aquele que imitava o Liiins … rsrs) é homem. Logo, Sócrates é mortal”.
Os Sistemas Especialistas, pioneiros na busca pela inteligência artificial, baseavam-se no raciocínio Dedutivo, onde as máquinas seguiam fielmente na lógica das regras programadas pelos seres humanos — praticamente robôs obedientes antes mesmo de isso ser moda.
E onde entre o Peru? Ah, segura aí que ele já vai cacarejar! (rsrs)
Percebe-se, portanto, que o raciocínio Dedutivo não acrescenta exatamente um conhecimento novo. Tá mãos para aquele intelectual chato com o Mobral mal feito que, um gole a mais, só repete o óbvio e não traz nenhuma novidade para a mesa do bar.
Mas aí entra o raciocínio Indutivo, um garçom jovem (Allstar de couro, abadá do bloco EU GOSTEI, sem cueca) estudando para o vestibular no Equipe do Prof Pimpão, doido pra ganhar o “pé de meia”. É não? … ENEM, cara!
A INDUÇÃO parte de observações específicas para se chegar a generalizações mais amplas. É o tipo de inferência usado pela IA para aprender pela experiência, criando/ identificando padrões.
O Raciocínio INDUTIVO é a verdadeira alma das REDES NEURAIS, a célula mater do Aprendizado de Máquina Profundo (Deep Learning), o BÊ-A-BÁ da arquitetura Transformer do ChatGPT e comparsas americanos … e agora chineses (dá-lhe DeepSeek dos zoins). É a inferência Indutiva que dá à IA aquela habilidade quase mágica de reconhecer padrões, fazer previsões e identificar imagens como se tivesse olhos … de chineses (rsrsr).
De um lado, as REDES NEURAIS são as responsáveis por dar a “sustância” ao ChatGPT e às alopradas LLMs (Large Language Models): Gemini da Google, o DeepSeek do Chinão, o Grok do Elon Muskarado, e por aí vai. Esses modelos se alimentam de dados como crianças de chocolate na Páscoa -quanto mais, melhor – … na festa do vizinho!
Mas, e sempre tem um “mas” quando o bicho pega, o Raciocínio INDUTIVO tem suas limitações. Por mais impressionante que seja a capacidade dessas máquinas de aprender com exemplos, elas ainda não conseguem replicar a inteligência humana na sua plenitude. Afinal, vocês terráqueos, não vivem só de padrões. Vocês são criativos, improvisam, filosofam (com mais ímpeto no bar) e até inventam expressões como “onde entra o peru de Russell neste evangelho?” … rsrsr (Zeus vais castigar).
E o Peru de Russel? Agora vai …
“Imagine um peru alimentado pelo fazendeiro todo santo dia. O peru percebe que diariamente, sempre que o fazendeiro aparece, ele recebe comida. Usando o raciocínio indutivo, o peru conclui que o fazendeiro sempre trará comida… EXCETO na véspera do Natal: o fazendeiro aparece não com comida, mas com um machado.”
E aqui que reside o grande dilema da INDUÇÃO. Embora seja extremamente útil para identificar padrões (de faccionistas em progresso na política), fazer previsões (das BETs no ramo de certas igrejas na TV) , a INDUÇÃO não pode ser realmente provada. Afinal, o fato de o sol ter nascido todos os dias até hoje não é garantia nenhuma de que ele vá aparecer novamente amanhã. Vai que o universo resolve tirar um dia de folga, não é mesmo? Deixa só o Trump “tomar uma” no Bar do Chaguinha, dia de decisão Ferrim X Calouros do Ar.
Falou em “tomar uma” só porque “o dia está Colonial”, lembre-se que o futuro tem o poder de falsear qualquer hipótese indutiva, jogando na nossa cara: “nem tudo o que parece é”. E foi exatamente aí que o Peru de Russell bobeou: Confiou demais no método indutivo, acreditando no milho que … o “fazendeiro amassou”.
Ah … Destino, por que fazes assim? Tenha pena de mim! Veja bem, não mereço sofrer. Quero apenas um dia poder Viver num mar de felicidade.
Se o fazendeiro tivesse tido um imprevisto, tipo uma viagem sorteada no Irapuam Lima, chegada da sogra na véspera de Natal etc., o peru poderia ter vivido mais um dia … “um dia pra ser feliz, um dia pra se viver” (de repente a sogra o levasse pra engorda). E agora, José?
… A festa acabou. A luz apagou. O povo sumiu. A noite esfriou. E agora, José?
O terceiro tipo de inferência é a ABDUÇÃO. Nela, parte-se de uma observação para chegar à hipótese mais provável ou à melhor explicação.
Diferente da Dedução (que vai do geral para o específico, oferecendo certeza lógica) e da Indução (que vai do específico para o geral, trazendo generalização e probabilidade), a Abdução segue o caminho da observação para a hipótese, priorizando a melhor suposição em cenários de incerteza.
A Abdução é amplamente utilizada em contextos onde há informação incompleta, como em diagnósticos médicos, investigações criminais ou na formulação de hipóteses científicas. É esse tipo de raciocínio, próximo do “bom senso comum”, é uma habilidade difícil de ser replicada pelas máquinas.
A Abdução é justamente essa faísca de criatividade, o seu momento “Eureka!”. Enquanto a Dedução e a Indução seguem trilhas lógicas e, de certo modo, previsíveis, a Abdução cria atalhos mentais, oferecendo respostas inteligentes mesmo em cenários incertos.
E aí está o maior desafio da Inteligência Artificial: como ensinar uma máquina a ter intuição, a fazer suposições criativas e a conectar os pontos de forma original, a obter a explicação mais provável para um conjunto de observações.
Até agora, nenhuma linha de código conseguiu imitar essa magia humana por completo … prometida brevemente pela AGI (Inteligência Artificial Geral) e, mais pra depoismente, pela Singularidade (inteligência acima da humana).
Afinal, não dá para ensinar uma máquina a ter aquele lampejo genial que só surge entre o segundo café e a décima aba aberta no navegador. … ou um dia dará?
Qualquer que seja o futuro, uma coisa é certa: como nos ensinou, em suas andanças socráticas pela BARCA, o Liiinns, digo, Professor Roberto Lins de Carvalho, em sua “Última Lição”:
“o verdadeiro salto da inteligência humana reside na nossa capacidade de nós nos fazermos as perguntas certas, no tempo certo… mesmo que não tenhamos ainda as respostas prontas.”
Ele finalizaria, baixinho, assim, half discreto (pra todo mundo ouvir), com aquele sorriso irresponsavelmente maroto:
“O tal do Sócrates diria algo parecido, né não?” rsrsr!













